Workshop orientado por João Fiadeiro e Fernanda Eugénio entre 27 de Agosto e 01 de Setembro no Atelier Real, em Lisboa.
O workshop Handling_Tools é um projeto que se inscreve no âmbito da programação do AND_Lab, um centro de investigação artística e criatividade científica com sede no Atelier Real em Lisboa e que se afirma enquanto plataforma de partilha de procedimentos, operações e modos de fazer-problema, vindos tanto da arte como da ciência, na relação-tensão entre política, ética e quotidiano.
O workshop Handling_Tools foi desenhado à volta da investigação, da sistematização e da partilha das ferramentas-conceito e do modo operativo daquilo a que chamamos “secalharidade”, uma prática de improvisação e criação colectiva de paisagens de convivência, resultante do encontro entre o método de Composição em Tempo Real desenvolvido pelo coreógrafo João Fiadeiro e da etnografia como ferramenta para performances situadas da antropóloga Fernanda Eugénio.
“Secalharidade” é um “modo de relação” que assenta na substituição do protagonismo do sujeito, do controlo e da manipulação, por uma ética do manuseamento suficiente, que transfere o protagonismo para o Acontecimento. O termo Handling traduz a ideia de “partilha” que atravessa o projeto AND_Lab, propondo ainda dois outros sentidos: salienta a dimensão de zelo e cuidado envolvida nos procedimentos infinitesimais do manuseamento; e ainda a capacidade de “aguentar” e “sustentar” uma ética do viver juntos que não seja dada de antemão, mas gerada colectiva e presencialmente, no próprio ato do encontro.
“Convocar alguém para uma party-cipação envolve ampliar a membrana do “pequeno grupo” e abrirmo-nos a uma conversa sobre os modos de estarmos juntos, na partilha das responsabilidades pelo gerar e pelo gerir do nosso próprio entorno. Mas como usar o que temos para desenhar um território de “partycipação” franco e recíproco, quando o que temos são mecanismos de poder que escoam quase irresistivelmente para a representação, a demonstração ou a exposição? E estes, a primeira coisa que fazem é imobilizar o outro, em algum grau, na condição de objecto, retirar-lhe a agência e a responsabilidade, cancelar o convite a ele recém-endereçado, organizar o “evento” e suspender a hipótese do acontecimento como acidente emergente e auto-organizativo. Pensamos então testar modos de tornar possível a emergência da idiorritmia – modos de oferecer ao Outro a possibilidade de nos etnografar a nós, de disponibilizarmo-nos como matéria, como coisa, como combustível a alimentar um campo de forças comum, feito ao mesmo tempo da nossa (nossa e dos outros) autonomia enquanto agentes individuais e da nossa (nossa e dos outros) justa e assumida exposição a relações de co-dependência e reciprocidade. Relações estas que estão sempre a ser (re)feitas, cabendo a nós (a nós e aos outros) tornar o dispositivo que temos numa partycipação no aqui e no agora, mas também numa continuada inclinação à duração. Convocar uma party-cipação envolve oferecemo-nos, mas oferecer também as ferramentas que usamos – dizê-las, praticá-las convosco, expô-las ao vosso manuseamento.”
João Fiadeiro e Fernanda Eugénio
NOTAS BIOGRÁFICAS
O percurso de João Fiadeiro têm-no levado a aproximar-se da investigação através da arte e a distanciar-se, a uma velocidade proporcional, da criação coreográfica. Este movimento, que ganha agora uma dimensão mais formal com a sua colaboração regular com disciplinas como as Ciências dos Sistemas Complexos, a Neurociência ou a Antropologia, esteve sempre latente quer na sua prática enquanto artista, como na forma como desenhou a RE.AL – estrutura que fundou em 1990 – à volta de projetos transversais e laboratoriais. Em qualquer dos casos a sua ambição foi sempre investigar, questionar e experimentar modalidades do “como viver juntos”. E é exatamente essa questão que o leva a encontrar a antropóloga Fernanda Eugénio que, por sua vez, se tem aproximado das artes performativas na sequência de uma crescente inquietação em relação à omnipresença do interpretativismo relativista nas práticas de produção discursiva das Ciências Sociais e àquilo que começou, cada vez mais, a lhe parecer uma neutralização da vivência etnográfica na coerência explicativa do texto e na função-autor assumida pelo investigador.
PUBLICO ALVO
O workshop Handling_Tools está aberto a intervenientes de diversas disciplinas artísticas e científicas, que se interessem e reflitam sobre as questões por nós propostas. Procuramos participantes que se disponibilizem a formular e reformular as perguntas em torno das quais construímos as nossas redes de convivência, seja na arte, seja no quotidiano.
CARGA HORÁRIA: 30 horas
HORÁRIOS
As sessões têm lugar entre as 14:00h e as 19:00h.
PREÇO: 150 euros
Mais informações: andlab@re-al.org
O Atelier Real tem alojamento disponível para acolher alguns dos participantes nos workshops.


